Negação da ciência e ausência de liderança. Por que não atingimos a transição sustentável?

Atualmente, as queimadas de florestas estão batendo seguidos recordes, como na Austrália, no Brasil e nos EUA. Embora a discussão do meio ambiente esteja presente em todos os discursos, poucas medidas eficazes podem ser vistas. Isso também está relacionado ao mal-entendido sobre as mudanças climáticas pela população em geral. Nos EUA, por exemplo, cerca de 30% dos seus cidadãos não acreditam que o aquecimento global é real. Neste caso, como a negação vem de um país relevante, com cidadãos educados e cheio recurso, fica claro notar que há forças má intencionadas confundindo a opinião pública.

Este ano, no World Economic Forum, o projeto de plantar 1 trilhão de árvores surgiu ingenuamente como uma solução bala de prata. Ele foi posto equivocadamente em Davos, nos Alpes suíços, como se pudéssemos enfrentar a descarbonização das fontes de energia, a irregularidade das tempestades, a subida do nível do mar e tudo de uma vez.

O Brasil sofreu muita pressão internacional devido ao desmatamento e às queimadas. A Alemanha e a Noruega retiraram seu financiamento de conservação no Fundo Amazônia devido à má gestão dos recursos naturais. A retaliação foi ainda mais longe quando os holandeses vetaram o tão esperado Acordo Comercial UE-Mercosul. Mas aqui estão alguns paradoxos:

A Alemanha, que é conhecida por sua pujante indústria automotiva, tem apenas 1% de veículos híbridos e elétricos como proporção de sua frota total. Mas mesmo que consigam uma transição completa para veículos elétricos (VEs), cerca de metade da matriz energética do maior país europeu depende de fontes de combustíveis fósseis. Este fato colocou a eficiência dos subsídios de VEs sob controvérsia e sérias dúvidas enquanto sua efetividade em reduzir as emissões.

Novamente, uma negação de fatos brutais.

A Noruega, que tem o maior fundo de riqueza soberana, construiu a maior parte de sua riqueza no setor de petróleo e gás . Apesar disso, hoje seu fundo ainda investe em empresas de risco ambiental. Uma delas, por exemplo, é uma mineradora no Brasil, a Hydro, que poluiu fortemente o rio Amazonas e tinha o governo nórdico com pelo menos 30% de sua participação. Mais um exemplo de falta de liderança de uma nação rica.

A Holanda, por exemplo, foi recentemente condenada por seu próprio tribunal devido ao fracasso de suas ações em prol da sustentabilidade. O país dá um péssimo exemplo aos seus cidadãos e executivos, quando ele próprio não consegue cumprir os objetivos firmados num acordo internacional.

Por exemplo, a maior empresa petrolífera europeia tem sede na Holanda, a Royal Dutch Shell. Ela abandonou suas pesquisas sobre biocombustíveis de algas porque isso estava “a anos de se tornar comercializável” na época. Mesmo sendo uma das líderes de mercado, é clara sua falta visão de longo prazo pois  esta companhia, assim como seus pares, focam em marketing sobre sustentabilidade ao invés de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) em energias renováveis. Os investimentos em P&D na área de renováveis feito pelas maiores petrolíferas do mundo é em média 2% de sua receita, o que mostra uma complacência de uma indústria que precisa de inovação disruptiva caso não queira destruir grande parte do seu valor nas próximas décadas

No caso dos países emergentes, quando se trata de matriz energética, o Brasil tem cerca de 80% proveniente de fontes renováveis – um percentual de participação ​​quatro vezes maior que a média do mundial ou da OCDE, a partir de dados de 2017.

O Brasil também tem a mistura de gases de menor emissão do mundo, com mais de um quarto do etanol de cana-de-açúcar em sua composição.

Somente as empresas brasileiras do setor de madeira e celulose administram 56 milhões de km² de conservação florestal e 80 milhões de km² de árvores plantadas. Isso é maior do que a área de Portugal e Suíça juntas.

Por outro lado, 80% do desmatamento ilegal no Brasil está associado à pecuária.

Globalmente, a indústria de alimentos para animais responde por 83% das terras agrícolas. Embora ocupe a maior parte das terras férteis do mundo, ela produz apenas 18% das calorias mundiais, mas ao mesmo tempo é responsável por 60% das emissões de gases de efeito estufa da agricultura, o que é mais do que todo o setor de transporte no mundo.

Não só isso, mas ainda existem outras consequências sanitárias da indústria animal, como novas doenças transmissíveis, epidemias e superbactérias. Além disso, o consumo excessivo de alimento de base animal está diretamente ligado ao aumento dos riscos de câncer, problemas cardíacos e diabetes.

Consequentemente, maiores orçamentos de saúde pública são necessários em função deste consumo. Ainda hoje, a sociedade subestima os custos oriundos da alimentação animal. Existe um grande déficit público que deve ser tratado pela contabilidade socioambiental. Neste contexto multifatorial, a pecuária é a atividade mais danosa, ela causa desmatamento, gases efeito estufa e prejudica a saúde coletiva.

Obviamente, os países latino-americanos estão longe de atingir o desmatamento zero. São necessárias medidas e regulamentações mais eficazes em relação a toda a cadeia de suprimentos da indústria animal. Mas ficou claro que o motor desse dano é a fome internacional de carne bovina e laticínios.

Nessa questão, o Reino Unido e a Europa são os que estão mais avançados na discussão, com imposto progressivo sobre alimentos em relação a quão prejudicial é sua cadeia de suprimentos e também aos danos relativos à saúde pública. A única maneira de influenciar o comportamento do consumidor e, além disso, reduzir os gastos com saúde é tributando a indústria alimentícia proporcionalmente a estes custos ocultos. Uma política que apesar de justa, causa polêmica, mas não deve ser tratada como tabu. Apesar disso, o lobby da indústria tem feito um trabalho de marketing mais convincente do que a comunidade científica, infelizmente.

 

Texto original e respectivas fontes: Denial of science and leadership void. Why can’t we tackle sustainability?

 

Andre Castelo Branco

Engenheiro Civil, trabalhou com startups e na área de investimentos.

Deixe um comentário

× Como posso te ajudar?